Morar e trabalhar no exterior, será que vale a pena?

Num cenário de crise política, recessão econômica, desemprego e aumento da violência, muitos brasileiros tentam buscar oportunidades no exterior. Será que está valendo a pena? Conheça algumas histórias de quem decidiu deixar o Brasil.

Não há uma resposta única para essa pergunta, mas tudo vai depender de sua situação no Brasil e do que você espera conseguir no exterior. Ser bem sucedido nessa empreitada depende também do país que você escolher para morar e trabalhar. Conversar com brasileiros que saíram do país pode ajudar nessa decisão.  Não se pode imaginar que qualquer atividade vai garantir uma vida com qualidade. O sonho de uma vida melhor existe, mas planejamento, informação e o tipo de trabalho são essenciais para que a aventura valha a pena.

Morar e trabalhar no exterior, será que vale a pena?

Os números que levam os brasileiros a sonhar com uma situação melhor

Os números mostram um cenário de desalento em relação ao Brasil. Muitos brasileiros estão buscando oportunidades fora do país porque não encontram emprego por aqui. Desde 2016, a taxa de desemprego vem se mantendo alta. No primeiro trimestre de 2018, a taxa de desemprego foi de 13,1%, de acordo com o IBGE. Em maio de 2017, ela havia sido de 13,3%. Isso significa que 13,7 milhões de brasileiros estavam desempregados no setor formal da economia, até o mês de março. Esse número é maior do que o último trimestre de 2017, em 11,2%.

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No primeiro trimestre de 2018, houve uma queda de 1,2% no número de pessoas que tinham carteira assinada, segundo o IBGE, o que significa 402 mil pessoas a menos do que no trimestre anterior. A carteira assinada é um passaporte para o crédito, o que ajuda a movimentar a economia.

Desde 2014, houve um grande crescimento no número de pessoas que saíram do país. Entre 2014 e 2016, o número das “declarações de saída definitiva do país” foi de 55.402.  Em 2017, foram 21,7 mil brasileiros deixaram o país até 13 de dezembro. Esse número não considera as pessoas que deixaram o Brasil como turistas e não mais voltaram.

A situação no país está difícil, com queda da renda per capita, recessão, crise política, poucas perspectivas de oportunidades de trabalho, violência. São motivos para ir embora, entre os que têm condições de assumir os custos de uma mudança para fora do país. São pessoas que buscam uma nova vida, um futuro melhor. Há desde trabalhadores especializados, que se contentam com uma chance para conseguir trabalhos manuais, até profissionais altamente qualificados, executivos que desejam abrir um negócio, abandonando suas carreiras no Brasil. Há casais com filhos pequenos, com a expectativa de um futuro melhor.

Vamos conhecer aqui três casos de brasileiros que estão fora do país, são jovens e tentaram uma vida melhor há no máximo 5 anos e não pretendem voltar ao Brasil. Conhecer sempre é útil para comparar e ajuda a tomar decisões. Os nomes que usarei são fictícios.

Morar e trabalhar no exterior, será que vale a pena?

Morar e trabalhar nos Estados Unidos

Muitos dos imigrantes acabam trabalhando em qualquer atividade que conseguem, por maior que seja a sua qualificação, porque o objetivo é ajudar no sustento da família que ficou no Brasil. E existem muitos brasileiros que tentam a sorte no exterior como imigrantes ilegais, a maioria entrando nos países com visto de turista. Quem entra ilegalmente nos Estados Unidos, não poderá mais viajar para o Brasil e depois retornar, se houver arrependimento não haverá segunda chance.

Aqueles que se dirigem para os Estados Unidos, sem autorização, estão violando a lei americana. Os conservadores americanos se referem a esses imigrantes como “ilegais” e os progressistas e defensores dos direitos humanos preferem imigrantes não documentados”. O termo “não autorizados” também é utilizado, como alternativa neutra.

Em muitos casos, ter um filho em solo americano serve como estratégia para legitimar a presença da família no país. Um terço dos imigrantes “não autorizados” nos Estados Unidos vive com um filho nascido americano. Neste caso estão muitos brasileiros que estão vivendo nos EUA há algum tempo.

É o caso de Júlia, 26 anos. Faz 2 anos e 7 meses que ela vive em Nova York, com o marido e o filho de 2 anos e 7 meses. Julia chegou grávida aos Estados Unidos e o bebê foi registrado americano. Eles pagaram 1.500 reais pelo atendimento no hospital para o parto, e o restante o seguro saúde cobriu. O seguro é americano, pelo qual ela afirma que não paga nada. Ela adorou o atendimento que recebeu no hospital.

Julia saiu do Brasil sem falar uma palavra de inglês, antes trabalhava com balconista e caixa de supermercado. Estudou até o ensino médio, o marido, Jeferson (26) também. Jeferson (nome fictício), quando chegou, conseguiu um emprego de auxiliar em uma empresa de manutenção de residências e aprendeu a trabalhar com pisos de madeira. Depois disso, decidiu montar a sua própria empresa de instalação de pisos de madeira, em sociedade com um irmão, que também chegou aos EUA para trabalhar com ele. Por força de atender os clientes, seu marido já fala bem o inglês.

Segundo dados do Departamento de Segurança Doméstica dos EUA, os imigrantes que obtiveram o Green Card em 2015, não tinham um emprego em seu país de origem, como é o caso de Julia e Jeferson. Eles se enquadram nas estatísticas, que dizem que apenas 41% dos imigrantes que chegaram entre 2010 e 2015 tinham diploma universitário, sendo que uma pequena parcela, 4,4% dos imigrantes trabalhavam na construção e 2,4% em serviços, como é o caso do Jeferson.

A situação de Jeferson e Júlia se enquadra nessa situação, de trabalho manual de prestação de serviço na área de manutenção de residências e empresas. Jeferson atua num setor com pouca concorrência e parece estar com uma situação financeira muito tranquila, ganhando mais de U$ 6.000 por mês. O casal aluga um apartamento de tamanho médio, com 2 dormitórios, e paga U$ 2.500 por mês. Eles têm dois carros, o marido tem uma BMW e Júlia tem uma Mini Cooper. Ela diz que nunca precisa usar transporte público.

O bairro em que moram tem a infraestrutura de comércio e é agradável, mas eles não têm amigos americanos, só brasileiros. Ir ao supermercado e ao shopping é o lazer do casal. Júlia sai sozinha para fazer compras e levar o filho ao médico, mas diz que no mercado e no hospital várias pessoas falam espanhol. A dificuldade é quando os vizinhos americanos tentam se comunicar, “aí complica” diz ela.

Júlia está trabalhando de “babysitter” de uma menininha de 10 meses, na sua própria casa. A mãe a leva pela manhã e ela fica por 7 horas, em 4 dias da semana. Julia recebe 200 dólares por semana pelo trabalho. Desde que chegou ela não tentou outro tipo de trabalho, por causa do filho pequeno, mas no ano que vem ele vai para a escola. Júlia nunca sentiu nenhum tipo de preconceito por parte dos vizinhos, o que ela não gosta do país americano são os impostos, que ela acha muito altos. O casal não planeja voltar ao Brasil e para eles a falta dos pais foi a maior dificuldade que eles já enfrentaram. Mesmo o inverno rigoroso de Nova York para eles não foi obstáculo por conta do aquecimento. Brasil agora só para passear, segundo ela.

Júlia e Jeferson entraram nos Estados Unidos com vistos de turistas, tiveram um filho americano, trabalham, mas permanecem como ilegais ou não autorizados. O governo Trump promete deportar pessoas que estejam vivendo nos Estados Unidos sem permissão, forem flagrados nessa condição. Isso quer dizer que eles vivem sempre com muita tensão para não serem flagrados e não podem vir ao Brasil visitar a família, enquanto durar sua permanência irregular.

Morar e trabalhar no exterior, será que vale a pena?Morar e trabalhar na Irlanda

Vamos conhecer outras histórias de jovens brasileiros que encararam ir para o exterior. Desta vez, a história de Paulo solteiro, 37 anos, que saiu do Brasil, há 5 anos, em fevereiro de 2013, com destino à Itália, para fazer o processo de cidadania italiana. Depois de 30 dias o processo havia terminado e ele partiu para Dublin, na Irlanda, onde está até hoje.

Ele afirma que lá há muito trabalho, para todos, desde subempregos, para quem não fala inglês, até trabalho para pessoas graduadas, em suas áreas específicas. Segundo ele, os salários são bons, mas não o ideal para se viver realmente bem. O melhor mesmo é a qualidade de vida que se tem e a segurança. Paulo concorda com a voz comum, o mais difícil de viver fora do Brasil é não estar perto das pessoas queridas.

Paulo trabalha numa empresa de limpeza técnica de carpetes e estofados. Seu salário é de 12,5 euros por hora. O salário mínimo na Irlanda é de 1.400 euros por mês, mas, segundo Paulo, para se viver bem ali é preciso ganhar pelo menos 1.800 euros. Em seu trabalho ele ganha 2.000 euros por mês bruto, mas reclama das taxas de 70 euros descontadas por semana. Ele gosta do trabalho, porque deixa bastante tempo livre para estudar e cuidar de seus cultivos, além do lazer. Paulo mora num apartamento duplex de 60m2, dividindo o aluguel de 1.250 euros por mês com um amigo. O apartamento fica numa região central, com todas as facilidades ao redor.

Paulo é formado em gastronomia no Brasil e tem amigos de várias nacionalidades, Fala bem o inglês, fez um curso quando chegou e depois aperfeiçoou com o tempo. Ele estuda e pratica técnicas de cultivo de “cannabis sativa” (maconha). O trabalho atual é temporário e no ano que vem ele pretende se mudar para a Espanha, para colocar seu plano em prática, que é de trabalhar legalmente com o cultivo e a comercialização de “cannabis”. Por enquanto, ele cultiva em laboratório. Na Irlanda essa atividade ainda não é legalizada, mas na Espanha ele pretende morar na Catalunha, onde existem clubes de “cannabis”.

Em Dublin, ele nunca precisou consultar ao medico, nem ir ao hospital. A saúde, segundo ele, deixa muito a desejar, é 100% privada, cara e de baixa qualidade. Ele não tem seguro saúde, que são caros. As consultas são caras, os hospitais são caros e de pouca confiabilidade. Quando precisa ele recorre a tratamento preventivo de acupuntura feita com acupunturista brasileiro. Ele usa o transporte coletivo, que integra ônibus, trem e bonde.

Se o inverno europeu pode parecer um obstáculo para a adaptação de muitos brasileiros, para Paulo isso não acontece, ele não tem dificuldade quanto ao clima frio, o inverno da Irlanda é tranquilo para ele. Quanto à comida, o que mais estranha é o “breakfast”, o café da manhã com bacon, ovos, cogumelos, feijão e salsichas. Mas há qualquer tipo de frutas e  legumes ano inteiro no mercado, orgânicos e melhores do que no Brasil, se quiser cozinhar só não encontra mandioquinha.

A maior dificuldade para ele foi dominar o idioma. Ele diz que os irlandeses são educados, de maneira geral, mantendo uma inocência que os distingue dos brasileiros. A falta da família é hoje compensada pelo acesso à internet e às redes sociais. Nesses cinco anos ele voltou duas vezes para o Brasil, seu pai foi duas vezes à Irlanda e sua mãe foi três vezes. Ele não pensa em voltar mais ao Brasil, mas diz que sua vida seria provavelmente mais fácil no Brasil.

Morar e trabalhar no exterior, será que vale a pena?Morar e trabalhar na Espanha

Silvia foi para Madrid em junho de 2015. Ela é inglesa de nascimento, mas viveu desde criança no Brasil, onde cursou Ciências Sociais na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Ela fez um mestrado no Brasil, mas quis fazer outro mestrado de um ano na Espanha. Por ter dupla nacionalidade, ela entrou na Europa como cidadã europeia, para fazer o curso do Centro de Estudos da Mulher da Universidade Autônoma de Madrid (UAM).

Depois de algum tempo em que participou de um grupo de pesquisa da universidade, não houve renovação do financiamento. Mas até aí ela já tinha conhecido o Paco, na universidade, com que passou a morar. Desde então está sem trabalho estável. Silvia faz trabalhos temporários por dia ou semana, que podem pagar a partir de 60 euros a 120 euros por período. A maior parte do que faz é na área de turismo, como guia e receptivo de brasileiros em Madrid. Encontrar um emprego adequado à sua formação foi a maior dificuldade que ela enfrentou na Espanha.

Apesar de não ter um bom emprego, Silvia acha que ela vive em uma situação bem confortável e estável financeiramente, melhor do que muitos espanhóis. Isso porque Paco é professor da Escola Politécnica de Madrid, UAM Madrid. Ele é físico de formação e ganha 2.400 euros. Ele comprou uma casa, através de uma hipoteca, para ser paga em 30 anos. O valor mensal da prestação é de 900 euros, o que é menor do que a média dos aluguéis na região em que mora.

Ela diz que não voltou ao Brasil por causa do Paco e que não teria permanecido na Europa se não fosse a dupla cidadania, porque os brasileiros enfrentam muitos obstáculos, principalmente com relação à burocracia. Segundo ela, nesse caso, para passar dificuldades é melhor permanecer perto da família, no Brasil. Em breve, por causa do Brexit (a saída da Inglaterra da Comunidade Europeia), ela provavelmente vai perder a cidadania europeia e acredita que vai ter que enfrentar os mesmos obstáculos burocráticos que os brasileiros que não tem passaporte europeu.

A casa em que eles moram é geminada, em uma pequena vila de operários de uma antiga fábrica, fechada nos dias de hoje. Fica a 8kms do centro de Madrid, o que ela considera “nem longe, nem perto”. Foi construída em esquema de mutirão, o que não é muito comum na Espanha. Para o padrão europeu é considerada boa, com 65 m2, mas ela considera que era bem pequena para a finalidade que era atender a famílias grandes, com 4 filhos em média, como eram as famílias espanholas na época do Franco (ditador espanhol, de 1936 a 1975). Perto da onde moram há de tudo, cinema, mercado com frutas, verduras e peixe fresco. O metrô fica a uns 200 metros da residência.

O casal usa transporte público, quase que exclusivamente, o metrô e o trem, para ir à universidade. Seus amigos são os amigos do Paco e alguns entre os colegas do mestrado da UAM. Tem também alguns amigos brasileiros que conheceu pela internet, pelo blog BLPM – Blogueiros de Língua Portuguesa em Madrid.

Seu contato com os espanhóis é bem fácil, especialmente por viver com um espanhol, que tem família e amigos que a acolheram com carinho, junto dos quais ela se sentiu muito bem recebida.

Silvia e Paco têm um seguro saúde, que custa 100 euros mensais. O atendimento ela acha frio, impessoal, acha que muitos médicos estão desatualizados. Entretanto, conseguiu encontrar uma médica de clínica geral que é sensacional. O seu seguro saúde particular é bem amplo e cobre muitos procedimentos, inclusive fisioterapia, mas não aceita a acupuntura, considerada alternativa. O seu plano médico permite escolher médicos e hospitais de atendimento.

Segundo ela, o inverno em Madrid não é muito rigoroso,mas é longo, quando chega o mês de fevereiro estão todos cansados de tirar e por casacos. A diferença atual de 5 horas no fuso horário está dificultando seus contatos com a mãe no Brasil, quando Silvia está indo dormir, sua mãe não chegou ainda do trabalho. Vir ao Brasil para visitar a família uma vez ao ano é prioridade para Silvia, ela economiza o ano inteiro para não deixar de vir. A mãe também vai à Espanha uma vez por ano, Silvia é quem providencia as passagens.  Voltar ao Brasil para morar é uma alternativa nos planos para o futuro, mas a ideia de envelhecer na Espanha para ela é mais interessante.

Conclusão

Viver fora do Brasil parece estar cada vez mais no discurso dos brasileiros, é o que vemos em comentários nas redes sociais e no dia a dia. Com o crescente desemprego e instabilidade política e econômica, essa ideia parece crescer. Mas é importante avaliar a experiência de quem saiu do país. Cada caso tem suas peculiaridades, um casal sem qualificação, Julia e Jeferson, que vivem sem documentação nos Estados Unidos, mas com uma situação financeira invejável, Silvia, a profissional com dois mestrados, que não encontrou emprego e permanece longe do Brasil porque se casou com um professor espanhol, e um rapaz solteiro, de escolaridade superior, que trabalha 40 horas em uma atividade manual que não exige qualificação e que deseja realizar o sonho de produzir e comercializar maconha legalmente, algo que ainda está longe de acontecer no Brasil. O que será que essas histórias individuais nos ensinam? São jovens e apostaram em um caminho longe da família e do próprio país, por maior que tenha sido o desafio, não pretendem voltar. Podemos concordar que sua experiência foi de crescimento e positiva? Se você está pensando em fazer o mesmo, é importante se informar sobre o que realmente pretende fazer e sobre a realidade que provavelmente vai encontrar.

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